Entre o sonho e a realidade: Les Demoiselles de Rochefort (Jacques Demy, 1967)


"The stuff that dreams are made of."
Maltese Falcon (1941)


Toda vez que vou me adereçar a este filme fico um tanto desnorteado, afinal, como falar de uma
obra tão grandiosa ao ponto de ser daqueles raros filmes no qual se pode chamar de 'maior que a vida'? Qualquer tentativa de falar sobre ele se torna quase que automaticamente falha, pois é um filme que lida com algo que é difícil de descrever em palavras: sentimentos, sobretudo o amor, chave mestra nos filmes de Demy, que guia seus personagens para a mais bela alegria ou a decepção mais amarga. Como havia feito com seus filmes anteriores, Demy leva o amor não para Paris,(como já diria uma personagem do filme: pequena demais para aqueles que tem um grande amor) mas para outras cidades francesas, outros casos, novos amores e desilusões. Os caminhões e os feirantes entram ainda de manhã na cidade, trazendo com eles a alegria e os affairs que podem proporcionar. Na mesma estrada, soldados caminham em sentido oposto; duas realidades que coexistem em um mesmo mundo, não é novidade para o diretor, a guerra já havia desestabilizado o casal de Les parapluies de Cherbourg. Até no mais idílico dos lugares, a iminência da violência e morte existem, uma realidade não exclui a outra, mas no universo de Demy batalham entre si, para ver se o céu vai cair ou não por terra.


Mas mesmo com os militares, os personagens dançam e cantam com toda a euforia que guardam. Celebram a simples alegria de estarem vivos (joy de vivre, como Lola, outra sonhadora apaixonada do universo de Demy, já diria: é bom estar vivo, sem saber que a realidade a esperaria com um balde d'água fria depois). As cores transcendem emoções, tudo dá o ar de paraíso, mas não tarda para a realidade bater a porta novamente: apesar de cantarem o amor, os protagonistas, homens e mulheres, jovens e donzelas, ainda não encontraram, e o procuram em seu caminho errante, como se fosse a razão de seus viveres, sem saber que estes estão a uma passo de distância deles (é um mundo pequeno demais para grandes amores), por isso, estão sempre sonhando e lamentando, mas ainda contentes, afinal, a esperança é a última que morre. As irmãs gêmeas nascidas sob o signo de gêmeos, são a fonte mór de paixão do filme, é através delas e para elas que o amor se propaga. Duas belas dualidades (ruiva e loira, introspectiva e extravagante, dança e piano, mas o mesmo sangue e sonhos as unem, tanto fora da tela quanto dentro dela). Os protagonistas parecem estar presos numa espécime de teia de acasos, ruas, encontros e desencontros, estão tramados. O amor tudo manda e desmanda, quando não é ele que dita as regras, é a ordem social ou o dinheiro.


Talvez seja de todos os seus filmes o que homenageia de forma mais clara os clássicos musicais de Hollywood, de Singin' in the Rain até An American in Paris, com o Gene Kelly aqui quase que como uma aparição religiosa numa cena verdadeiramente milagrosa, feita somente de gestos, troca de olhares, risos, poucas palavras e, é claro, de música; é uma cena simples, mas infinitamente encantadora, pois é ali que o amor se instaura, através de um pequeno ato do cotidiano. Há também um pouco de Max Ophüls (a presença de Danielle Darrieux, protagonista de Desejos Proibidos, no qual seus brincos traçam um trajeto de coincidências, acasos e amor), como já havia tido em maior dose em seu primeiro longa metragem, Lola (e que coexiste no mesmo universo que este e Parapluies). Demy volta a cutucar mais uma vez nesta felicidade praticamente útopica do filme, ao inserir um assassinato brutal na história: um crime passional numa cidade passional é o preço que se paga pelo romantismo. O amanhã sempre chega, para o bem ou para o mal. A festa acabou, os feirantes vão partir assim como chegaram, levando consigo as garotas. O último dia para ser feliz na cidade dos sonhos. É o ápice do filme, o grande momento após todas as idealizações e sonhos, no qual ou elas se concretizam ou se perdem para sempre, e daí, Demy descarrega de vez todo o poder acumulado dessas situações e amores não concretizados,  tornando o seu final numa verdadeira fábrica de sonhos. Um dos casais finalmente se reencontram, Andy e Solange concretizam seu amor através de uma dança, ambos vestidos de branco numa sala branca, como se tivessem sido transportados para o paraíso. Não há palavra a ser dita, o que havia de ser cantado já o foi. O que resta agora são esses corpos em plena sintonia. Os caminhos finalmente se cruzam, mas ainda falta uma peça do quebra cabeça: Maxence e Delphine. Mesmo assim, os vários amantes dançam na praça, histórias de amor entre várias outras. O amor se mostrou o mais forte (será?). Enquanto os caminhões se dirigem ao horizonte, o pedaço que falta do paraíso se junta a eles. Não há mais nada a ser mostrado. A música cresce e o filme se fecha em azul agridoce. Demoiselles se situa na filmografia do diretor entre Parapluies e Model Shop (o que há por trás dos finais felizes), e, por se situar entre dois filmes tão descrentes no amor, acaba por  torná-lo tanto efervescente quanto trágico: alegre e triste ,pois o "felizes para sempre" só existe no conto de fadas. Afinal, então o que é Les Demoiselles de Rochefort? Sinceramente, jamais saberei  explicar propriamente, pois ele se encontra entre essa linha tênue que separa a realidade do sonho. Demy era um idealista e mostrou que é capaz de sonhar e ainda manter um pé no chão e outro nas nuvens, e pra isso precisou falar sobre esse sentimento (ou melhor, mostrá-lo), eterno ou não, que é o amor.

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